El cine y la memoria: formas de producción y dimensiones históricas

El cine participa de forma activa en el esfuerzo tanto de los individuos como de las sociedades en construir memoria. Por un lado, tenemos los filmes familiares, que ganan nuevo impulso con la difusión de la cámara Pathé Baby a partir de la década de 1920 y posteriormente con el Super 8 y los aparatos de video. Se trata de un espacio de fabricación de una historia de vida muchas veces entrelazada con sus contextos más amplios, como demuestra Péter Forgács en sus películas, uno de los muchos cineastas que recurren a esos registros como material de archivo. Por otro lado, tenemos los documentales y las llamadas películas históricas que recuperan y abordan temas del pasado a fin de interrogar el presente y el propio estatuto de la memoria, adquirido por este medio de comunicación de masas.

Christian-Marc Bossérro observa que el cine, ya en sus primeros tiempos, aparecía como elemento de registro de la memoria a ser trabajado por el historiador. Según el autor, “los primeros proyectos de cinematecas nacieron a la vuelta del siglo, concebidos de manera estrictamente documental para archivar la imagen de los grandes acontecimientos, de los grandes personajes, de los lugares notables y de las civilizaciones lejanas”. Perfecta ilustración de esta concepción del cine como máquina memorial, un proyecto de 1908, en Francia, propuso que los cementerios fuesen equipados con servicios cinematográficos para que las familias de los difuntos pudiesen verlos resucitados en la pantalla. Vehículo de memoria antes de ser vehículo de ficción, el cine se inscribía en el siglo, desde su inicio, como uno de sus archivos futuros.[i]

Si en un primer momento el cine fue pensado con el propósito de almacenar la memoria de eventos, personajes y acciones que constituirían los documentos a ser transformados en Historia por los profesionales competentes, luego fue visto también como arma de combate, vehículo de transmisión de conocimientos dentro de aquello que Marc Ferro denominó ‘contra-historia’.[ii]

Al mismo tiempo, la producción cinematográfica de reconstrucciones de época agrega a la idea arriba expresada otra dimensión, dado que no se trata sólo de captar las efemérides del momento, sino de celebrar por medio de películas de “ficción” aquellas conmemoraciones que forman parte del mismo imaginario de una determinada sociedad o proponer relecturas de ciertos temas a fines de cuestionar no sólo el pasado, sino también el presente. Integrante de una corriente cuyo eslabón reside en la voluntad de ampliar las fronteras de circulación del saber histórico, atribuyendo nuevos papeles al hacer del historiador, el cine se incorpora en esos casos a un circuito de producción y perpetuación de la memoria, cristalizado en los museos y monumentos destinados a la visita pública. Expresando la voluntad de “parar el tiempo, (...) bloquear el trabajo del olvido, fijar un estado de cosas, inmortalizar la muerte, materializar lo inmaterial”[iii], el cine es lugar de memoria, es la “machine mémorielle” del siglo XX.

El objetivo principal del dossier es, por lo tanto, reflexionar sobre los diversos desdoblamientos en el cine como vector de memoria, estimulando el debate sobre su papel en sus diversas dimensiones, circuitos y soportes. También pretende abordar los procesos por los cuales el cine se inserta en la producción de una memoria, procesos construidos, revisados y crecientes en su densidad a lo largo de los años, motivos de innumerables disputas que se desarrollan hasta la actualidad. En lo que se refiere a este aspecto, la cuestión de la memoria puede ser comprendida en varias dimensiones: como pauta para las identidades sociales y políticas; como forma de recordar e interpretar, socialmente hablando, eventos y personajes; y como política de reparación y justicia en torno a las violaciones de derechos humanos y políticos que marcaron el período. En este contexto, el papel de la memoria ha ocupado parte considerable del espacio público gracias a la proliferación de museos, conmemoraciones, películas, programas televisivos y otras manifestaciones culturales actuales, en directa consonancia con la llamada valorización de los “lugares de memoria”, que caracterizó la segunda mitad del siglo XX.

[i] Les ailes de l’Histoire. Vertigo. Le cinéma face à l’histoire. (16): 8, 1997.

[ii] FERRO, Marc. “O filme: uma contra-análise da sociedade?” En: LE GOFF, Jacques y NORA, Pierre (orgs.). História: novos objetos. Trad. Terezinha Marinho. Rio de Janeiro: F. Alves, 1976, p. 199-215.

[iii] Pierre Nora, Entre Memoria e Historia. La problemática de los lugares, Projecto Historia, (10): 22, dic. 1993.


O cinema e a memória: formas de produção e dimensões históricas.

O cinema participa de forma ativa no esforço tanto dos indivíduos quanto das sociedades em construir uma memória. Por um lado, temos os filmes familiares, que ganham novo impulso com a difusão da câmera Pathé Baby a partir da década de 1920 e posteriormente com o Super 8 e os aparelhos de vídeo. Trata-se de um espaço de fabulação de uma história de vida muitas vezes entrelaçada com os seus contextos mais amplos, como demonstra Péter Forgács em seus filmes, um dos muitos cineastas que recorrem a esses registros como material de arquivo. Por outro lado, temos os documentários e os chamados filmes históricos que recuperam e abordam temas do passado a fim de interrogar o presente e próprio estatuto de memória adquirido por este meio de comunicação de massas.

Christian-Marc Bossérro observa que o cinema, já em seus primeiros tempos, aparecia como elemento de registro da memória a ser trabalhado pelo historiador. Segundo o autor, “os primeiros projetos de cinematecas nasceram na virada do século, concebidos de maneira estritamente documental para arquivar a imagem dos grandes acontecimentos, das grandes personagens, dos lugares notáveis e das civilizações longínquas. Perfeita ilustração desta concepção de cinema como máquina memorial, um projeto de 1908, na França, propôs que os cemitérios fossem equipados com serviços cinematográficos para que as famílias dos defuntos pudessem vê-los ressuscitados na tela. Veículo de memória antes de ser veículo de ficção, o cinema se inscrevia no século, desde o seu início, como um de seus arquivos futuros”.[i]

Se em um primeiro momento o cinema foi pensado com o intuito de armazenar a memória de eventos, personagens e ações que constituiria documento a ser transformado em História pelos profissionais competentes, logo foi visto também como arma de combate, veículo de transmissão de conhecimentos dentro daquilo que Marc Ferro denominou a ‘contra-história’[ii].

Ao mesmo tempo, a produção cinematográfica de reconstituições de época agregam à ideia acima uma outra dimensão, dado que não se trata tão somente de captar as efemérides do momento, mas de celebrar por meio de filmes de “ficção” aquelas comemorações que fazem parte do imaginário de uma determinada sociedade ou propor releituras de certos temas a fim de questionar não apenas o passado, mas seu presente. Integrante de uma corrente cujo elo reside na vontade de ampliar as fronteiras de circulação do saber histórico, atribuindo novos papéis ao fazer do historiador, o cinema incorpora-se nesses casos a um circuito de produção e perpetuação da memória, cristalizado nos museus e monumentos destinados à visitação pública. Expressando a vontade de “parar o tempo, (...) bloquear o trabalho do esquecimento, fixar um estado de coisas, imortalizar a morte, materializar o imaterial”[iii], o cinema é lugar de memória, é a “machine mémorielle” do século XX.

O objetivo principal do dossiê é, portanto, refletir sobre os vários desdobramentos no cinema como vetor de memória, estimulando o debate sobre o seu papel em suas diversas dimensões, circuitos e suportes. Também pretende abordar os processos pelos quais o cinema se insere na produção de uma memória, processos construídos, revisados e adensados ao longo dos anos, motivos de inúmeras disputas que se desenvolvem até a atualidade. No que diz respeito a este aspecto, a questão da memória, ela pode ser compreendida em várias dimensões: como pauta para as identidades sociais e políticas; como forma de lembrar e interpretar, socialmente falando, eventos e personagens; e como política de reparação e justiça em torno das violações de direitos humanos e políticos que marcaram o período. Neste contexto, o papel da memória tem ocupado parte considerável do espaço público graças à proliferação de museus, memoriais, comemorações, filmes, programas televisivos e outras manifestações culturais atuais, em direta consonância com a chamada valorização dos “lugares de memória”, que caracterizou a segunda metade do século XX.



[i] Les ailes de l’Histoire. Vertigo. Le cinéma face à l’histoire. (16): 8, 1997.

[ii] FERRO, Marc. “O filme: uma contra-análise da sociedade?” In: LE GOFF, Jacques e NORA, Pierre (orgs.). História: novos objetos. Trad. Terezinha Marinho. Rio de Janeiro: F. Alves, 1976, p. 199-215.

[iii] Pierre Nora, Entre Memória e História. A problemática dos lugares, Projeto História, (10): 22, dez. 1993.

 

Bibliografía/Bibliografia

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CAPELATO, M. H. et al. (org.) (2011). História e cinema: dimensões históricas do audiovisual. 2nd ed. SP: Alameda Casa Editorial.

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FERRO, M. (1976). O filme: uma contra-análise da sociedade? In: LE GOFF, J. and NORA, P. (org.). História: novos objetos. RJ: Francisco Alves Ed., pp. 199 - 215.

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KORNIS, M.  (guest editor). (2013). Dossiê História e Audiovisual. Estudos Históricos. Postgraduate Studies in History, Politics and Cultural Heritage (PPHPBC) of the CPDOC/FGV. v. 26, # 51.

KORNIS, M., MORETTIN, E. and NAPOLITANO, M. (2012). História e documentário. RJ: Ed. FGV.

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NORA, P. (1993). Entre Memória e História. A problemática dos lugares. Projeto História. (10): 7 – 28, Dec.

SOBCHACK, V. (ed.) (1996). The Persistence of History: Cinema, Television and the Modern Event. NY: Routledge.

 

Número previsto para enero de 2020.



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